1986-O ano que mudou os quadrinhos

“Quadrinhos é coisa de criança”, “Por que você está lendo isso?”, “Por que você não troca isso por um livro?”. Se você é um leitor de quadrinhos com certeza já ouviu alguma dessas frases e teve que se justificar ou simplesmente ignorar. A mídia Quadrinhos quase sempre foi menosprezada e tratada como algo inferior, porém há 30 anos houve um movimento no mercado que catapultou os quadrinhos para o mainstream. 1986 pode ser considerado um grande ponto de virada para os quadrinhos.

Claro que não se pode analisar este ano isoladamente e pensar que tudo isso surgiu simplesmente do nada. Como diz o escritor Mario Schimitd em seus livros sobre história, acontecimentos históricos são consequências de processos que gradualmente culminam em algo grande. Com isto posto, vamos voltar para os anos 50 e fazer uma breve análise de como era o mercado de quadrinhos nessa época.

No início da década de 50 os quadrinhos de horror, crime ou qualquer outro tema um pouco mais pesado eram muito criticados pela imprensa, educadores, grupos de pais e psiquiatras. O número de delinquentes juvenis nos EUA vinha aumentando e esses grupos procuravam relacionar os quadrinhos com o mau comportamento desses jovens norte-americanos. Além disso, lembre-se que os EUA viviam uma completa paranoia neste período de pós-guerra e início da Guerra Fria, culminando na criação do Comitê contra as Atividades Antiamericanas pelas mãos do senador Joseph McCarthy (por isso o período entre 1950 e 1958 é conhecido como Macartismo), que propiciou uma caça às bruxas a todos aqueles que fossem acusados de qualquer coisa, principalmente atividades relacionadas de alguma forma ao comunismo.

No meio deste turbilhão ideológico um psiquiatra de jovens problemáticos começou a apontar em seus artigos os malefícios que os quadrinhos podiam causar para a juventude norte-americana. Seu nome era Dr. Fredric Wertham e ele se tornou conhecido pela publicação de “A sedução do inocente”, um livro que procurava atestar como os quadrinhos induziam os jovens a roubar, serem violentos, usarem drogas e até mudarem sua orientação sexual. No livro, Wertham insinuava uma relação homossexual entre Batman e Robin e dizia que a Mulher-Maravilha não era um bom exemplo para as garotas, pois era um símbolo do lesbianismo.

Fredric Wertham e a obra que causou um grande impacto negativo aos quadrinhos

Por ser escrito em linguagem acessível, Sedução do inocente teve grande adesão na sociedade dos EUA daquela época. As pessoas começaram a queimar quadrinhos na rua e a protestar contra as temáticas mais pesadas presentes nas histórias, tendo como principal alvo a EC Comics, grande nome dos quadrinhos de terror. Por medo de uma grande queda nas vendas das revistas e na extinção de algumas delas, as editoras formaram a CMAA – “Comic Magazine Association of America” (Associação das Revistas em Quadrinhos da América) e com isso pretendiam estabelecer uma espécie de código moral para a publicação de histórias em quadrinhos. Era uma espécie de sistema de auto censura, na qual as histórias consideradas adequadas recebiam um selo de aprovação em sua capa. Surgia então o Comics Code Authority.

Com a adesão das editoras ao Comics Code Authority, as histórias começarem a ter uma temática mais infantilizada e lúdica. O Batman deixou de ser um combatente do crime sombrio que as vezes chegava a matar alguns inimigos e se tornou um personagem mais humorístico, com suas histórias possuindo uma temática mais leve e divertida. O Superman começou a ser uma espécie de símbolo do “American Dream” e as histórias de terror desapareceram completamente dos pontos de venda.

Histórias mais bobas dos super-heróis, que influenciaram o seriado do Batman nos anos 60

Há ainda muitos outros exemplos dessa transformação, porém não mencionarei para que o texto não se alongue muito. Pois bem, esse tipo de temática nas HQs durou um certo tempo, mas a partir dos anos 60 o CCA foi perdendo sua força, muito pela ascendência de um mercado de HQs underground nos EUA e a criação de uma certa família de super-heróis que usavam uniformes azuis e possuíam um 4 estampado no peito.

Em Quarteto Fantástico, Stan Lee e Jack Kirby já exploravam temas que não eram comuns em outras HQs da época, como super-heróis que tinham problemas pessoais. Os heróis da Marvel criados a partir desta época tinham crises existenciais, problemas financeiros, brigas familiares além de combaterem seus vilões. Eram temas mais adultos inseridos em uma mídia considerada infantil, claro que nada muito extremo já que a censura ainda perdurava.

A dupla Stan Lee e Jack Kirby

Foi em 1971 que o CCA levou seu primeiro grande golpe, já que neste ano o departamento de saúde do governo dos EUA encomendou à Stan Lee uma história na qual fosse realizada uma conscientização aos jovens contra o uso de drogas. O CCA se recusou a colocar seu selo na capa do quadrinho sem sequer tentar analisar a história e perceber que a temática em questão não estava sendo usada como apologia ao uso de drogas, mas sim combate a isso. Stan Lee cansado de se submeter a tal censura publicou a história sem o selo de capa. Publicada na revista Amazing Spider Man 96-98, a história se tornou um sucesso de vendas e agradou ao público.

O selo perderia ainda mais força no decorrer da década de 70, muito por causa de uma nova geração de escritores e artistas que estava entrando no mercado. Esses novos quadrinistas vinham das periferias das grandes cidades e traziam muito de seu dia a dia para os quadrinhos. Um dos exemplos desse tipo de quadrinho é o da dupla Arqueiro Verde e Lanterna Verde, escrito por Denny O’Neil e desenhado por Neal Adams, que fazia uma análise crítica da sociedade norte americana da época e mostrava várias das mazelas que os EUA sofriam durante o período em que estava acontecendo a guerra do Vietnã. Foi nesse quadrinho que o sideckick do Arqueiro Verde, Roy Harper (que possuía a ridícula alcunha de Ricardito no Brasil), se tornou um usuário de drogas.

Na Marvel também haviam escritores e artistas com esse perfil. Gerry Conway, que assumiu a revista do Homem-Aranha após Stan Lee, trouxe temáticas mais adultas para as histórias de Peter Parker e também foi o responsável pela morte da namorada do personagem, Gwen Stacy, fato conhecido como o fim da Era de Prata. O Capitão América de Steve Englehart questionava diversas facetas do “American Dream” e acabou se sentindo desapontado com a sociedade dos EUA, chegando ao ponto de abandonar sua identidade como super-herói que carregava a bandeira dos EUA no uniforme e se tornar o Nômade. Numa revista de um personagem de baixo escalão, considerado uma cópia barata do Homem-Aranha, um jovem artista vindo de Vermont (o estado mais rural dos EUA) começava a trabalhar temas que raramente eram vistos nas HQs de grandes editoras.

Inicialmente como artista, e depois conciliando também a função de roteirista, Frank Miller assumiu a revista do Demolidor e começou a criar uma identidade própria para o personagem. O advogado Matt Murdock, que sofreu um acidente na infância que o deixou cego e ao mesmo tempo tornou seus outros sentidos mais apurados, se torna o defensor da Cozinha do Inferno. Miller aborda a violência, a criminalidade e até mesmo o uso de drogas em suas histórias com forte influência Noir e com uma arte bastante diferente, que possuía influências que iam de Will Eisner até o Mangá (quadrinho japonês).

Frank Miller, o artista que revolucionou o Demolidor

No início dos anos 80, a DC, por meio da editora Karen Berger, estava procurando escritores que fossem capazes de revitalizar alguns de seus personagens de menor escalão. Berger se voltou para a Inglaterra, onde os autores escreviam histórias que fugiam do comum em revistas como a Warrior e a 2000AD. Berger conversou com muitos autores, que posteriormente deram início ao fenômeno chamado de Invasão Britânica, mas o primeiro a ser contratado foi um jovem escritor que já havia publicado histórias curtas em diversas revistas. Seu nome era Alan Moore.

Moore ficou responsável pela revitalização do Monstro do Pântano e já nos primeiros números de sua trajetória na revista ele virou o personagem do avesso. O escritor sabia que devia escrever histórias de terror e se fez a seguinte pergunta “O que realmente me dá medo?”. Monstros e espíritos seriam repostas muito óbvias, mas Moore planejava algo muito mais assustador: Ele desmente tudo que o personagem acreditava até então e o deixa sem rumo, perdido em sua existência. Ele também cria a figura de John Constantine e faz com que ele motive o Monstro a viajar pelos Estados Unidos e resolver diversos problemas de cunho sobrenatural, mas que estão diretamente ligados à questões sociais do país.

Alan Moore e Dave Gibbons, a dupla responsável por Watchmen

Art Spiegelman foi fundador da revista RAW e um dos maiores nomes do quadrinho underground. Art sofreu diversos traumas em sua vida que moldaram muito suas obras, como uma internação em um manicômio, o fato de seus pais terem sido aprisionados em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, a morte de seu irmão mais velho e o suicídio de sua mãe. Os relatos de seu pai sobre a juventude e o período no campo de concentração seriam a fagulha que o motivaria a escrever sua obra mais conhecida.

Art Spiegelman e sua obra mais aclamada

Frank Miller, Alan Moore e Art Spiegelman revolucionaram a indústria de quadrinhos em 1986. Batman- O Cavaleiro das Trevas, Watchmen e Maus são obras aclamadas até os dias de hoje e tiveram um grande impacto na forma de se fazer quadrinhos.

O Batman mais velho que retorna da aposentadoria idealizado por Frank Miller possui elementos anarquistas e fascistas em sua personalidade. A luta entre ele e Superman é uma das sequências mais emblemáticas já feitas nos quadrinhos. Além do roteiro sombrio, a arte de Frank Miller, com arte-final de Klaus Janson e cores de Lyyn Varley, é algo que merece destaque. Aspectos revolucionários como sua narrativa inovadora, com as intervenções dos noticiários na TV durante a história, diagramação de páginas diferenciada e perspectiva são ovacionados até os dias de hoje.

A icônica luta entre Batman e Superman

O Cavaleiro das Trevas chegou a entrar um pouco no aspecto de desconstrução do arquétipo de super-herói, mas foi Watchmen de Alan Moore que fincou os dois pés neste terreno(importante mencionar que Moore já havia feito um trabalho com esta temática em Miracleman). A história que mostra a investigação para descobrir o assassino do Comediante nos apresenta figuras que apesar de serem chamadas de heróis, possuem diversos problemas sejam eles físicos ou psicológicos. Rorschach, Coruja, Espectral, Ozymandias e até mesmo o distante Dr. Manhatan são personagens que possuem uma humanidade latente e que caminham na área cinzenta da moral humana padrão. O roteiro de Moore é muito bem complementado pela arte de Dave Gibbons, com uma narrativa jamais vista em um quadrinho mainstream, como a diagramação de nove quadros por página e um capítulo da história que reflete seu fim e início. Watchmen ganhou todos prêmios possíveis: Eisner, Hugo e até mesmo foi colocado na lista de 100 maiores obras em língua inglesa (o único quadrinho na lista) da revista Time.

Exemplo da narrativa de 9 quadros utilizada em Watchmen

Em Maus, Art Spiegelman nos traz um relato visceral sobre a Segunda Guerra Mundial e a perseguição aos Judeus através das histórias contadas por seu pai, que é um sobrevivente desta época, e de analogias com animais. Ao mesmo tempo, ele mostra como estes acontecimentos interferiram em sua relação com seu pai e como este se tornou uma pessoa difícil de se conviver, além de suas dificuldades para publicar esta obra. Este é um quadrinho que te emociona, que te faz sentir mal as vezes e que te faz pensar sobre relações humanas, sobre ódio, amor e compreensão. Maus é um quadrinho aclamadíssimo por crítica e público e foi vencedor do prêmio Pullitzer. Esta obra é tão revolucionária que tiveram que criar uma categoria especial para que ela fosse agraciada com o prêmio.

A partir de 1986 nada mais seria igual. O impacto dessas obras foi imenso, tanto em temática e aspectos narrativos quanto na parte gráfica. Esses quadrinhos apresentavam qualidade gráfica superior, com um acabamento de capa e qualidade de papel muito diferentes das tradicionais publicações da época. Foi uma espécie de passo adiante ao que Will Eisner já fazia desde os anos 70 com suas Graphic Novels.

A primeira graphic novel de Will Eisner

O impacto dessas obras reverbera até hoje na indústria de quadrinhos. Veja como o recente Rebirth da DC e o vol. 3 de Cavaleiro das Trevas de certa forma reciclam conceitos criados há 30 anos por esses autores. Mas, ao voltar para aquela época, vemos que o impacto foi imediato. A Invasão Britânica, que mencionei anteriormente, é meio que consequência disso e com ela o surgimento de novos autores que seguiam a escola de Miller e Moore, ou seja, que cresceram não apenas lendo quadrinhos mas também consumindo muita literatura, filmes e diferentes tipos de artes que os influenciaram a criar suas próprias histórias.

Claro que a influência desses autores, principalmente Moore e Miller, e suas obras não foi positiva apenas. Muitos só captaram a superfície das histórias, interpretando-as de maneira rasa e equivocada, o que nos levou ao período de heróis sombrios e superficiais dos anos 90, encabeçado principalmente pelos personagens criados pela Image. Hoje temos esse tipo de figura que apenas captura a superficialidade e artifícios “massaveísticos” dessas histórias personificada em Zack Snyder.

Acredito que com esse (imenso rs) texto consegui apontar os motivos para que 1986 seja um ano simbólico para a indústria de quadrinhos. Há temas que apenas pincelei, como a Invasão Britânica,  ou que sequer mencionei, como Queda de Murdock, que é outra história icônica que Miller escreveu no mesmo ano, e a briga de Alan Moore com a DC, mas pretendo voltar à eles no futuro. Já me estendi bastante, então se você quiser se aprofundar mais no assunto deixarei aqui links de materiais que me serviram como base de pesquisa:

Bem, espero que tenham gostado. Deixe aí nos comentários a sua opinião sobre as obras que eu comentei aqui para que possamos discutir sobre. Até a próxima!

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Lucas Araújo

Programador, estudante de TI e co-fundador do Justiça Geek. Fanático por quadrinhos, aficionado por filmes e séries, leitor faminto, gamer esporádico e músico (muito) frustrado. Gosta de falar sobre tudo isso em seu tempo livre(ou até mesmo quando não está tão livre...), debatendo questões essenciais para a humanidade como quem vence um crossover entre super- heróis, qual é seu escritor favorito e se um filme foi bem feito.