Pantera Negra – O filme de herói que precisávamos!

Se Jack Kirby ainda estivesse vivo, acredito que estaria bastante orgulhoso sobre como seu trabalho foi transposto para o cinema. Se pararmos para pensar, o trabalho de Kirby é responsável pelas maiores produções do cinema mundial dos últimos dez anos com seus personagens e seus visuais icônicos. Pantera Negra, filme dirigido por Ryan Coogler, continua honrando o legado de Kirby e possuí uma importância de transcende o cinema.

Antes de me aprofundar no filme, aqui vai uma breve sinopse: Após a morte do rei T’Chaka (John Kani), o príncipe T’Challa (Chadwick Boseman) retorna a Wakanda para a cerimônia de coroação. Nela são reunidas as cinco tribos que compõem o reino, sendo que uma delas, os Jabari, não apoia o atual governo. T’Challa logo recebe o apoio de Okoye (Danai Gurira), a chefe da guarda de Wakanda, da irmã Shuri (Laetitia Wright), que coordena a área tecnológica do reino, e também de Nakia (Lupita Nyong’o), a grande paixão do atual Pantera Negra, que não quer se tornar rainha. Juntos, eles estão à procura de Ulysses Klaue (Andy Serkis), que roubou de Wakanda um punhado de vibranium, alguns anos atrás.

O filme possui muitos méritos, sendo o principal deles seguir a fórmula Marvel ao mesmo tempo que propõe uma roupagem diferente para esta fórmula que vem se desgastando ao longo dos anos. Pantera Negra possui algumas piadas, mas aposta em uma abordagem mais séria, trazendo debates que raramente vemos em filmes de super-heróis. O tom político do filme é bem forte e não esperava menos dados os trabalhos anteriores do diretor e o cenário que vivemos atualmente.

Ryan Coogler é a principal estrela do filme, considero-o um dos principais diretores da atualidade. Sua maneira de filmar é diferenciada, o visual e ambientes que ele cria são belíssimos (repare em como Wakanda é altamente tecnológica, ao mesmo tempo em que realmente parece um país tribal jamais tocado por colonizadores) e o roteiro co-escrito por ele traz uma relação mais intimista do expectador com os personagens, algo que já havíamos visto em Creed e Fruitvale Station, este último um filme com tom bastante parecido com o apresentado em Pantera Negra e que recomendo que você veja desde já.

O visual do filme bebe da cultura africana e é belíssimo!

Por falar em personagens, todos são muito bem desenvolvidos ao longo do filme. Chadwick Boseman faz um excelente trabalho ao nos apresentar na figura de T’Challa um rei que ainda possui muitas incertezas quanto ao seu papel junto a seu povo, ao mesmo tempo que tem que ser forte para conduzir Wakanda em um tempo conturbado. Laetitia Wright faz um excelente trabalho como Shuri, a irmã do Pantera e minha personagem favorita do filme. Ela é divertida, inteligente e tem uma relação muito legal com seu irmão. Martin Freeman como Everett Ross faz um papel que não fede nem cheira, mas que serve para ilustrar as impressões que um estrangeiro tem ao chegar em Wakanda.

Shuri é sem dúvidas uma das melhores personagens do filme.

Lupita Nyong’o é bastante eficiente como Nakia, uma espiã de Wakanda e interesse amoroso de T’Challa, mostrando ser forte quando necessário, mas também sensível ao ajudar o rei de Wakanda a confrontar seus demônios. Danai Gurira chuta bundas como Okoye, líder das Dora Milaje, a guarda pessoal do governante de Wakanda. Você não gostaria de ter que enfrentá-la em uma batalha. Aliás, todas as personagens femininas do filme são incríveis.

Winston Duke como M’Baku e Daniel Kaluuya como W’Kabi são personagens interessantes e que mostram um pouco sobre como as tribos que fazem parte de Wakanda são diferentes, enriquecendo ainda mais o universo que Coogler quer apresentar no filme. Forest Whitaker como Zuri e Angela Bassett como Ramonda apresentam interpretações consistentes, ainda que sem muito destaque.

Quanto aos vilões, o filme é muito bem servido, já que Andy Serkis está insano como Ulysses Klaue, ele claramente está se divertindo ao interpretar o personagem. Michael B. Jordan como Erik Killmonger apresenta o melhor vilão do UCM desde Loki. Ele possui motivações muito convincentes que fazem o expectador refletir sobre algumas questões relacionadas ao comando de Wakanda. A analogia com as figuras de Martin Luther King e Malcom X é evidente na relação entre T’Challa e Killmonger.

O Sméagol tentando invadir Wakanda? Um belo crossover hein?

Como mencionei antes, é claro o tom politico do filme, tanto por essa analogia entre vilão e herói, quanto por frases que são críticas nada veladas a figuras como Donald Trump. Temas como racismo, conflitos e refugiados são discutidos de maneira muito madura durante o filme, trazendo um debate muito importante para o mundo em que vivemos hoje. Um outro ponto que merece grande desta é a trilha sonora, que teve a curadoria de Kendrick Lamar e dialoga muito bem com as cenas que vemos e a história dos personagens.

Mesmo tendo diversas qualidades, o filme não é perfeito e possui alguns problemas que não incomodam, mas que não podem deixar de ser mencionados. Coogler peca ao repetir algumas ações dos personagens a exaustão e prolongar demais algumas cenas, o que deixa a narrativa um pouco lenta em alguns momentos. Há também um evidente problema com o CGI, em algumas cenas os personagens são evidentes bonecos digitais, sem peso, algo que pode tirar um pouco da sua atenção do filme. Isso talvez se deva ao fato de que este é o primeiro filme de Coogler em que ele teve que trabalhar com CGI e a falta de familiaridade com esse recurso tornou as cenas em questão um pouco problemáticas.

Pantera Negra é um dos grandes filmes feitos pela Marvel, muito devido aos debates que apresenta, ao fato de ser mais isolado do resto do universo e de apresentar uma pegada mais autoral numa indústria que é inundada por filmes feitos de forma automática. É muito bom ver o legado de Stan Lee e Jack Kirby bem representado nas telonas. Espero poder assistir a mais filmes como esse.

Se você quer conhecer mais sobre o Pantera, leia nossa lista de recomendações com várias HQs do personagem!

Nota: 8,8/10

Ficha Técnica

Duração: 134 minutos
Estúdio: Marvel Studios
Direção:
Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler e Joe Robert Cole
Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Martin Freeman, Daniel Kaluuya, Angela Bassett, Winston Duke, Danai Gurira, Andy Serkis, Forest Whitaker

 

 

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Lucas Araújo

Programador, estudante de TI e co-fundador do Justiça Geek. Fanático por quadrinhos, aficionado por filmes e séries, leitor faminto, gamer esporádico e músico (muito) frustrado. Gosta de falar sobre tudo isso em seu tempo livre(ou até mesmo quando não está tão livre...), debatendo questões essenciais para a humanidade como quem vence um crossover entre super- heróis, qual é seu escritor favorito e se um filme foi bem feito.
  • Mateus Rodarte

    Não sei se atribuiria os creditos dos principais conceitos do personagem ao Kirby, mas ainda assim uma otima crítica

    • Lucas Araújo

      E aí Mateus, beleza?
      Valeu pelo elogio. Bom, o Kirby tem muito a ver com o que conhecemos do personagem visualmente falando, mas concordo com você que o Pantera Negra foi construído durante muitos anos e outros autores, como Cristopher Priest e Reginald Hudlin, têm grande responsabilidade na construção de seus principais conceitos.