Carlos Trillo é um dos maiores gênios dos quadrinhos, um brilhante roteirista argentino que consegue transitar entre as mais diversas histórias e apresentar tramas que prendem a atenção dos leitores e os leva a reflexões muito importantes. Ao lado de Horacio Altuna, outro mestre dos quadrinhos, ele concebeu O Último Recreio, uma história que de forma sensível e impactante discute sobre a essência do ser humano.
O quadrinho é situado em um futuro pós-apocalíptico, onde uma guerra biológica extermina toda a população adulta do planeta, deixando apenas crianças e pré-adolescentes vivos. Sem qualquer estrutura social, os sobreviventes tentam reorganizar suas vidas em meio ao caos, lidando com fome, violência, medo e, principalmente, a perda da inocência.
É óbvia a influência de O Senhor das Moscas, obra de William Golding, no trabalho de Carlos Trillo nesta obra, entretanto ele insere muitas particularidades que tornam O Último Recreio em uma história com méritos próprios. Ao discutir sobre o amadurecimento e o fim da infância e encarar o desafio de abordar a sexualidade tendo crianças como protagonistas, visto que aqui é o despertar do desejo que os levam à morte, o autor faz um estudo sociológico para discutir a essência do ser humano, principalmente seu aspecto violento, através de personagens muito críveis, ótimos diálogos e situações as quais não nos são desconhecidas, mas que mesmo assim não se tornam menos dramáticas.
Ao relacionar o fim da inocência com a morte, visto que é daí que vem o título da obra ao sinalizar que aquele é o último recreio daquelas crianças, Trillo com um texto refinado habilmente traz a reflexão de que a forma cínica com a qual os adultos encaram o mundo pode significar o fim da vida tanto em sentido figurado como de fato, basta olharmos ao nosso redor e observar os diversos conflitos ocorrendo nesse exato momento.
Os elogios feitos ao roteirista podem ser estendidos à Horacio Altuna, com seu traço cheio de detalhes nos ambientes, personagens expressivos e cheios de personalidade própria, um completo domínio do preto e branco e composições de página que fogem do comum e compõe a narrativa de tal forma que muitas vezes não é necessário uma linha de texto sequer para que você possa entender o que está acontecendo, mostrando como crianças enxergam a dureza da vida. Não à toa, Altuna é considerado um dos maiores quadrinistas da Argentina, tendo tido forte presença não só no mercado interno, mas também no europeu, angariando prêmios.
A edição publicada por aqui pela Risco faz juz a obra, com capa dura, sobrecapa, papel offset de alta gramatura, um tratamento editorial impecável. Com relação à extras, há um excelente prefácio escrito pelo jornalista e professor Paulo Ramos que dá um histórico sobre a publicação da obra, a parceria dos autores e o andamento da carreira de cada um, assim como uma biografia de Trillo e Altuna.
O Último Recreio é um clássico dos quadrinhos argentinos, uma obra que traz profundas reflexões e que representa o poder da dupla Carlos Trillo e Horacio Altuna, dois grandes gênios dessa mídia. É muito positivo que nos últimos anos tivemos cada vez mais obras produzidas por nossos vizinhos do continente publicadas por aqui e podemos ter contato com história de altíssimo nível. Essa é uma excelente porta de entrada pra você que quer conhecer mais sobre a produção sul-americana de quadrinhos.
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Ficha Técnica
Editora: Risco
Tradução: Jana Bianchi
Ano de lançamento: 2024
Páginas: 136
Preço: R$80,00
Lucas Araújo
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