Carnificina Americana – Botando o dedo na ferida!

O selo Vertigo da DC sempre foi sinônimo de qualidade, graças ao excelente trabalho de Karen Berger, sua criadora e editora durante anos, tendo sido responsável pela publicação dos mais prestigiados quadrinhos em diversos gêneros do mercado dos EUA durante um período considerável. Ao longo do tempo, com a saída de Berger e interferências da chefia da DC, o selo foi perdendo seu prestígio e acabou sendo extinguido, embora recentemente tenha sido anunciada sua volta. De todo modo, foi no apagar das luzes da primeira encarnação da Vertigo que tivemos a publicação do excelente Carnificina Americana, escrito por Bryan Hill, com arte de Leandro Fernandez e cores de Dean White, obra que segue a ótima linhagem de quadrinhos sobre crime do selo.

Na história  acompanhamos Richard Wright, um ex-agente do FBI que foi afastado após cometer um erro grave, caindo na depressão e na culpa. Ele ganha uma chance de redenção quando lhe é oferecida uma missão perigosa: infiltrar-se em um grupo extremista para desbaratar uma rede de ódio, poder e assassinato.

O roteiro de Bryan Hill é instigante, mostrando feridas que estão cada vez mais abertas na sociedade estadunidense, que envolvem não só a sede por poder como um profundo racismo, principalmente na dicotomia do fato de que Wright possui origens negras mas que é enxergado como branco por aqueles que não sabem disso. É notória a influência não só de filmes, como Infiltrados e Infiltrado na Klan, como de outros quadrinhos da Vertigo, como o sensacional Escalpo. A cada edição novos segredos são revelados e o autor prende a atenção do leitor em um verdadeiro jogo de gato e rato, além da forte carga política, algo natural visto que o quadrinho foi publicado durante o primeiro mandato de Donald Trump, fato mencionado diretamente ao longo da trama. O único problema é que a história fica um pouco corrida, principalmente nas duas últimas edições, gerando uma sensação de que houve intervenção do editorial, o que é corroborado pelo fato de que esse foi um dos últimos quadrinhos da Vertigo, tanto que em sua publicação no Brasil o quadrinho foi publicado já com o selo Black Label na capa. Hill deve ter tido que lidar com a enorme confusão que o comando da editora estava passando durante aquele período.

A arte de Leandro Fernandez é competente, ele já está acostumado a ilustrar histórias desse tipo, visto seu trabalho no Justiceiro Max de Garth Ennis. Seu traço tem um aspecto mais puxado para o realismo, com destaque para as expressões. Narrativamente, ele não é muito ousado, mas sabe impor o tipo de cadenciamento que esse tipo de história exige. O trabalho de Dean White ajuda a dar o aspecto Vertigo para a história, com cores pouco saturadas, lembrando o trabalho de outros grandes nomes do selo como Lee Loughridge e Matt Hollingsworth.

O quadrinho foi publicado por aqui em um encadernado com capa cartão, papel lwc, com  extras que consistem apenas nas capas da série. É um bom formato para esse tipo de publicação, entretanto já faz alguns anos desde a última tiragem e a editora nunca sinalizou uma reimpressão. Pela falta do envolvimento de autores mais conhecidos do grande público na obra, acredito que isso não role tão cedo, o que torna mais complicada a aquisição.

Carnificina Americana é um quadrinho que representa com muita dignidade a linhagem de títulos criminais da Vertigo, possui comentários políticos muito pertinentes e é uma prova de como encerrar esse lendário selo foi um erro por parte da DC. Tomara que com o atual renascimento, novas histórias desse calibre sejam publicadas e eles consigam atrair novamente grandes autores, que hoje em dia apostam mais na Image para publicar suas histórias.

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Ficha Técnica

Editora: Panini
Tradução: Érico Assis
Ano de lançamento: 2019
Páginas: 216
Preço: R$32,90

 

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Lucas Araújo

Programador, estudante de TI e co-fundador do Justiça Geek. Fanático por quadrinhos, aficionado por filmes e séries, leitor faminto, gamer esporádico e músico (muito) frustrado. Gosta de falar sobre tudo isso em seu tempo livre(ou até mesmo quando não está tão livre...), debatendo questões essenciais para a humanidade como quem vence um crossover entre super- heróis, qual é seu escritor favorito e se um filme foi bem feito.