Hellboy: Sementes da Destruição – O caldeirão de referências do genial Mike Mignola!

Nos últimos dias passei por uma terrível ressaca literária, algo que acredito ser comum acontecer de tempos em tempos com leitores assíduos. Estava contemplando minhas estantes pensando em como poderia retomar o hábito da leitura quando me deparei com minha coleção de Hellboy, a criação máxima de Mike Mignola, e logo me veio uma grande vontade de maratonar as histórias, visto que até hoje não li tudo referente às principais histórias do personagem (e digo só as principais porque ler tudo relacionado ao seu universo é uma tarefa hercúlea). Ao concluir a primeira história, a clássica Sementes da Destruição, parceria entre Mignola e John Byrne, além do colorista Mark Chiarello,  a ressaca estava curada e me lembrei do motivo de gostar tanto do personagem.

Sementes da Destruição se passa principalmente em 1994 e mostra Hellboy já atuando como agente experiente da B.P.D.P. (Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal), organização dedicada a investigar ameaças sobrenaturais. A origem do personagem remonta a 23 de Dezembro 1944, quando ele foi invocado na Terra pelos nazistas através de um ritual conduzido por Rasputin. Porém, em vez de se tornar uma arma do mal, Hellboy é encontrado e criado pelo professor Trevor Bruttenholm, conhecido por ele como “pai”, um cientista e ocultista que o educa com valores humanos e o transforma em defensor da humanidade. Na trama, Bruttenholm acaba assassinado por Rasputin, o que leva Hellboy a investigar uma conspiração envolvendo antigos deuses cósmicos, ruínas amaldiçoadas e a revelação de que sua própria existência pode desencadear o apocalipse.

Mignola mencionou em entrevistas que inicialmente se sentia inseguro em assumir todo o processo criativo e por isso pediu a ajuda de um roteirista mais tarimbado, no caso seu amigo John Byrne, tanto para organizar melhor as ideias quanto para atrair mais leitores para sua criação. Entretanto, o próprio Byrne admitiu que ele não precisava de ajuda, visto que elaborou toda a história e boa parte dos diálogos, cabendo ao quadrinista canadense apenas refinar alguns diálogos e realizar uma abordagem em que entrava na cabeça do protagonista, algo que seu criador acabou abandonando nas histórias seguintes, se tornando uma caraterística única de Sementes da Destruição. 

Mas falando da história em si, aqui é apresentando uma mistura de terror altamente influenciado por H.P. Lovecraft e Ficção Científica, com pitadas de humor por parte do protagonista. Aliás, é isso que traz um certo charme para as histórias do Hellboy e o tornam um personagem extremamente carismático, ele enfrenta os mais diversos inimigos, desde nazistas a membros de cultos, passando por criaturas do folclore europeu ou o que mais vier na cabeça de Mignola, e o faz com uma abordagem ora carrancuda ora bem humorada que cativa o leitor. Por mais que ele seja de fato um demônio, é o seu aspecto humano que é evidenciado, tanto na forma com a qual ele lida com seus desafios, quanto como ele lida com seus amigos e colegas de trabalho, como Liz Sherman e Abe Sapien, personagens aliás também muito interessantes. Também chama a atenção a capacidade de Mignola conseguir apresentar uma história que tem começo, meio e fim, mas que também é cheia de pequenas referências e pontas soltas que poderiam gerar histórias por si só e que, ao longo dos anos, de fato geraram. Essa é a forma com a qual ele consegue manter os leitores interessados nas histórias relacionadas ao “garoto demônio” até os dias de hoje.

Tudo isso é complementado pelo fato de que Mignola é um dos mais estupendos narradores gráficos que os quadrinhos já tiveram, um artista que consegue dizer muito mesmo que o quadro não tenha uma palavra sequer. O controle da narrativa que ele tem é impressionante, tanto no cadenciamento da história, equilibrando muito bem as cenas de ação mais super-heróica, uma reminiscência de seu trabalho com esse tipo de personagem anteriormente, mas também na construção de tensão das cenas mais calmas, com um exímio controle da virada de página, algo crucial para qualquer um que queira contar uma boa história de terror em quadrinhos. Ele apresenta todo esse apuro narrativo através de um traço bastante único, uma mistura de Jack Kirby, Lovecraft e Expressionismo Alemão, como disse Alan Moore certa vez, que é elegante e impactante.

Eu fiz a leitura através do primeiro volume da Coleção Histórica Hellboy publicada pela Mythos, que reúne não só Sementes da Destruição como duas histórias curtas que foram utilizadas para apresentar o personagem aos leitores na época. Aliás, essa foi uma bela coleção tanto pelo acabamento das edições, em capa dura e papel couché, quanto pelo primoroso trabalho do editor Fernando Bertacchini, que apresentava notas que contextualizar alguns acontecimentos, assim como extras que envolviam entrevistas e textos do próprio Mignola comentando sobre as histórias e também rascunhos e capas. Hoje em dia essa coleção é bem difícil de achar por um preço legal, mas é possível ler essa história pelos omnibus também publicados pela Mythos, que organizam tudo em ordem cronológica. Aliás, nos últimos anos a editora vem fazendo um bom trabalho com os títulos relacionados ao personagem, publicando todo o universo criado por Mignola, que é gigantesco.

Sementes da Destruição é o ponto de partida perfeito para você iniciar a leitura de Hellboy, um quadrinho divertidíssimo que demonstra toda a potência criativa de Mike Mignola e que com certeza fará com que você se apaixone pelo personagem, na releitura ela continuou tão impactante quanto da primeira vez que li. Seguirei na maratona, mas não sei se comentarei cada arco individualmente, talvez comente de forma geral quando finalizar. De todo modo, essa foi uma ótima oportunidade de comentar Hellboy por aqui, algo que inexplicavelmente não fiz nos últimos dez anos. Todo fã de quadrinhos deve ler ao menos uma história do Hellboy, o difícil é parar apenas na primeira.

 

Para comprar esse quadrinho clique AQUI. Ao comprar pelos nossos links você nos ajuda a continuar trazendo Justiça pra Cultura Pop! Ah e sempre tem um desconto bem legal 😉

Ficha Técnica

Editora: Mythos
Tradução: Fernando Bertacchini
Ano de lançamento: 2008(Coleção Histórica)/2021(Omnibus)
Páginas: 132(Coleção Histórica)/372(Omnibus)
Preço: R$49,90(Coleção Histórica)/R$189,90(Omnibus)

 

(Visited 4 times, 4 visits today)
The following two tabs change content below.

Lucas Araújo

Programador, estudante de TI e co-fundador do Justiça Geek. Fanático por quadrinhos, aficionado por filmes e séries, leitor faminto, gamer esporádico e músico (muito) frustrado. Gosta de falar sobre tudo isso em seu tempo livre(ou até mesmo quando não está tão livre...), debatendo questões essenciais para a humanidade como quem vence um crossover entre super- heróis, qual é seu escritor favorito e se um filme foi bem feito.