Duas Moças Nuas: A história de um quadro – O poder da arte como instrumento de sobrevivência!

Já comentei algumas vezes que um dos grandes atrativos dos quadrinhos é a capacidade que essa mídia tem de contar histórias das mais diversas formas, com o único limite sendo a criatividade do autor, já que não há limitação orçamentária ou a necessidade de lidar com inúmeros colaboradores. Duas Moças Nuas – A história de um quadro, quadrinho escrito e desenhado por Luz, pseudônimo de Rénald Luzier, publicado no Brasil pela Conrad, é mais um exemplo disso.


Um século de história visto através de uma pintura. Tudo começa em 1919, numa floresta nos arredores de Berlim. Otto Mueller pinta Duas Moças Nuas. Do ateliê de Mueller para a parede de um advogado judeu e depois para a exposição de “arte degenerada” promovida pelo regime nazista, o leitor acompanha uma crise crescente: a Grande Depressão de 1929, a ascensão de Hitler ao poder e a perseguição aos judeus.


É interessante como Luz utilizou uma experiência pessoal como base para a ideia de contar uma história da perspectiva de um quadro. Caso você não saiba, ele era um dos membros da equipe da revista francesa Charlie Hebdo, que em 2015 sofreu um ataque terrorista em sua redação que levou à morte de 12 pessoas, dentre elas diversos cartunistas colegas de Luz, que escapou do atentado por ter chegado atrasado no trabalho naquele dia. Duas Moças Nuas também é um sobrevivente de certa forma, e essa relação entre a obra de arte e o quadrinista é o que torna a trama ainda mais poderosa e intimista.

O quadro observou ao longo de cem anos a alegria de seu autor ao concebê-lo, inspirado em seu grande amor, a felicidade com a qual seu primeiro comprador o contemplou, o terror que os nazistas afligiram à humanidade e o ódio que esses tinham pela arte (o que infelizmente está acontecendo novamente), o fim da guerra e o reencontro de uma filha com seu pai de uma forma diferente. É um misto de emoções que demonstra o poder da arte não só como objeto de observação, como também como observadora.

E esse poder é ampliado pelo talento de Luz como quadrinista. Seu traço com um estilo pincelado é belíssimo, muito expressivo e cheio de personalidade. E narrativamente é extremamente inventivo, visto que mesmo limitado pelo uso de apenas uma “câmera”,ele consegue impor dinâmica através da passagem do tempo e o lugar no qual o quadro se encontra naquele momento que o leitor está acompanhando. O início do quadrinho, no qual vemos o surgimento das imagens conforme Otto Mueller pincela a tela na qual está pintando o quadro é uma das coisas mais lindas que eu já vi feitas nessa mídia e é o ponto no qual ele prende o leitor e faz com que ele não largue a leitura até a última virada de página. Coisa de gênio.

Não é a toa que o quadrinho foi multipremiado, tendo angariado os mais prestigiosos prêmios do quadrinho europeu, o FauveD’Or de melhor álbum no Festival de Angoulême e o Grand Prix de la Critique ACBD, prêmio concedido pela Associação de Críticos e Jornalistas de Quadrinhos da França.

A publicação da Conrad tem capa dura, papel offset e extras que consistem em um posfácio escrito por Rita Kersting, Diretora-adjunta do Museu Ludwig de Colônia (onde Duas Moças Nuas está exposto), uma biografia dos personagens que aparecem ao longo da história e uma cronologia da trajetória do quadro desde o momento de sua concepção até sua chegada ao Museu, além de uma bibliografia. É preciso destacar também o que a lendária Lilian Mitsunaga fez nas letras, parece que o quadrinho foi originalmente concebido em nossa língua de tanto esmero. Um trabalho editorial muito competente, que tem sido característica da Conrad ao longo dos anos, além da boa curadoria dos títulos.


Duas Moças Nuas é uma história sobre o poder da arte, os terrores que assolaram a humanidade no Século XX, a forma como um artista pode externar suas experiências pessoais em uma obra e um exemplo do poder dos quadrinhos como mídia. Uma das minhas melhores leituras neste ano, garanto que também será uma das suas.

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Ficha Técnica

Editora: Conrad
Tradução: Flávia Yacubian
Ano de lançamento: 2025
Páginas: 192
Preço: R$159,90

 

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Lucas Araújo

Programador, estudante de TI e co-fundador do Justiça Geek. Fanático por quadrinhos, aficionado por filmes e séries, leitor faminto, gamer esporádico e músico (muito) frustrado. Gosta de falar sobre tudo isso em seu tempo livre(ou até mesmo quando não está tão livre...), debatendo questões essenciais para a humanidade como quem vence um crossover entre super- heróis, qual é seu escritor favorito e se um filme foi bem feito.