Tex: O Homem dos Revólveres de Ouro – Escalpo encontra Bonelli!

Tex é um dos personagens mais populares dos quadrinhos, algo facilmente atestado simplesmente observando as prateleiras de qualquer banca de jornal (tão raras hoje em dia) ou comic shop e percebendo a quantidade de títulos que ele possuí, superando de longe heróis populares como Batman ou Homem-Aranha e rivalizando com os personagens de Mauricio de Sousa. A criação de Gian Luigi Bonelli e Aurelio Gallepini é famosa pelas histórias nas quais impõe justiça em meio ao velho oeste norte americanos, seguindo uma tradição que os italianos possuem em westerns (principalmente no cinema, sendo o expoente mais famoso Sergio Leone), mas curiosamente tem um certo estigma no meio da comunidade de quadrinhos de “gibi de velho”, já que de fato a faixa etária de seus leitores é mais elevada. Embora isso de forma alguma indique algo sobre a qualidade das histórias, que em geral é elevada, a Bonelli, casa editorial do personagem, ciente disso criou um selo chamado Romanzi a Fumetti ( que a Mythos adaptou para Graphic Novel por aqui) em que o objetivo é contar histórias ambientadas na juventude do Tex, muitas vezes convidando artistas de fora da Itália e reconhecidos por trabalhos em grandes editoras, com uma narrativa um pouco mais dinâmica e modernizada. É isso que vemos em O Homem dos Revólveres de Ouro, quadrinho escrito por Pasquale Rujo, com arte de R.M. Guéra e cores de Giulia Brusco.

O quadrinho narra uma história de vingança é investigação. Na época do confronto com o México, o exército dos EUA pediu ajuda dos Texas Rangers para combater os guerrilheiros comandados por Juan Gonzales. Vinte anos depois, uma série de assassinatos de veteranos desse confronto leva Tex e o seu pard Kit Willer, que foi membro dos Rangers, a investigar quem está ocasionando essas mortes e a única pista que eles tem é que o assassino carrega na cintura dois revólveres de ouro.

Pasquale Rujo apresenta um roteiro que contém todos os elementos que um bom western deve ter, com perseguições a cavalo, frases de efeito, personagens cativantes e, é claro, grandes cenas de tiroteio. É interessante a forma com a qual ele conduz a investigação que a dupla de protagonistas está realizando e propõe um contraste com a jornada de vingança do antagonista, voltando no tempo para construir suas motivações, além de apresentar um subtexto social sobre os conflitos que ocorriam na época que a história se passa, algo essencial para a determinação do território atual dos EUA. Tudo feito sem muita pretensão, apenas com o objetivo de contar uma boa história, uma das tradições da Bonelli.

A arte de R.M. Guéra é o grande destaque desse quadrinho, ele nasceu pra desenhar westerns como podemos ver em Escalpo, série co-criada por ele na Vertigo e um dos meus quadrinhos favoritos. Seu traço é bastante característico, com um aspecto sombrio que dá mais peso à história e está aliado a uma narrativa dinâmica que prende o leitor em cada virada de página. Isso trás um certo frescor ao personagem, o que acaba se tornando um atrativo para leitores mais jovens. As cores de Giulia Brusco, que também trabalhou em Escalpo com Guéra, são a cereja do bolo para o trabalho artístico, remetendo diretamente a esse clássico dos quadrinhos modernos.

A edição da Mythos possui capa cartão e papel offset e com relação à extras possui apenas uma introdução escrita por David Bonelli, atual chefe da editora fundada por seu avô. O trabalho editorial é competente e a editora merece elogios por ter conseguido um preço bastante competitivo para publicação.

O Homem dos Revólveres de Ouro é uma leitura que irá divertir os fãs de bons western e uma excelente porta de entrada para conhecer Tex, um personagem que vai muito além do estigma de “gibi de velho”. Acho pouco provável que após a leitura você não queira se tornar um pard dele e acompanhá-lo por muitas outras histórias. 

P.S. Esse quadrinho me fez lembrar da treta entre Mauro Boselli, editor de Tex, e Mike Deodato Jr. que impediu que o artista brasileiro trabalhasse com esse lendário personagem. Se não me engano, ele iria produzir uma história para o selo Graphic Novel também. Aposto que seria incrível, basta ver as poucas artes que ele produziu. Uma pena.
https://universohq.com/noticias/desentendimento-entre-editora-bonelli-e-deodato-jr-cancela-projeto-com-tex/

Ficha Técnica

Editora: Mythos
Tradução: Júlio Schneider e Dorival Vitor Lopes
Ano de lançamento: 2019
Páginas: 52
Preço: R$32,90

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Lucas Araújo

Programador, estudante de TI e co-fundador do Justiça Geek. Fanático por quadrinhos, aficionado por filmes e séries, leitor faminto, gamer esporádico e músico (muito) frustrado. Gosta de falar sobre tudo isso em seu tempo livre(ou até mesmo quando não está tão livre...), debatendo questões essenciais para a humanidade como quem vence um crossover entre super- heróis, qual é seu escritor favorito e se um filme foi bem feito.