Relatório de Brodeck – Os limites do medo e do ódio

Você já parou pra pensar que podemos estar vivendo um período no qual a sociedade está perdendo sua humanidade? Em meio a manifestações de ódio que por muitas vezes são motivadas pelo medo irracional, devemos nos questionar sobre o que sobrou de humano nas pessoas. Como manter a humanidade quando a maioria das pessoas a sua volta parece tê-la perdido? Esse é o questionamento principal de O Relatório de Brodeck, quadrinho escrito e desenhado por Manu Lacernet que adapta o romance homônimo escrito por Philippe Claudel (ainda inédito no Brasil).

O quadrinho conta a história de Brodeck, um habitante de um pequeno vilarejo em meio às montanhas, próximo à fronteira com a Alemanha, num período bem próximo ao fim da Segunda Guerra Mundial. Certo dia ao ir buscar manteiga no armazém do vilarejo, Brodeck descobre um terrível crime, o assassinato de um estrangeiro que visitava o vilarejo, que revela o que há de pior em seus vizinhos. Ele então é incumbido em elaborar um relatório que conte a verdade, ao mesmo tempo que deve inocentá-los de qualquer coisa.

Durante a narrativa conhecemos mais sobre a história de Brodeck e sobre o passado do vilarejo, descobrindo que nem tudo é tão tranquilo quanto parece. Os aparentemente pacatos moradores do vilarejo parecem esconder o que há de mais negro em suas almas e temem que um estrangeiro, chamado por eles de Anderer, possa trazer esse lado negro à tona.

Lacernet é muito hábil em conduzir a história de maneira a prender o leitor em suas páginas. Transitando entre passado e presente de forma bastante suave, o autor procura trazer tridimensionalidade a todos aqueles personagens e demonstrar a situação completamente desfavorável na qual eles se encontram.

O roteiro do quadrinho é bastante intrigante e visceral, mas o grande destaque é a arte de Lacernet. Sério, mal consigo expressar em palavras o que esse artista fez aqui, seja no apurado uso de luz e sombra, bastante carregado no nanquim, nos cenários incrivelmente detalhados e os enquadramentos que ele utiliza para expressar todo o isolamento com o qual aquelas pessoas já se acostumaram a conviver ou em rostos muito expressivos que demonstram todo o sofrimento pelo qual aqueles personagens passam ou para mostrar a tranquilidade do Anderer, tudo parece muito bem pensado, sem desperdício algum. Há também um interessante recurso visual que o artista utiliza ao retratar os Nazistas, que em certo ponto ocuparam o vilarejo, ao representa-los como criaturas disformes e monstruosas. É palpável o medo que aquelas figuras causam aos personagens, transmitindo parte deste medo ao leitor. Simplesmente coisa de gênio!

O trabalho da editora Pipoca e Nanquim já é conhecido pelos leitores, mas é sempre bom ressaltar o tratamento editorial dos caras. O quadrinho possui formato horizontal, capa dura, papel de ótima qualidade e uma sobrecapa com a qual você pode deixa-lo em pé em sua estante. O trabalho de revisão está ótimo e ponto positivo para a publicação de uma biografia do autor, o qual nunca havia sido publicado por aqui (o que é inexplicável), o que ajuda o leitor a conhecer um pouco mais sobre o trabalho do artista. Espero que o pessoal do Pipoca, ou mesmo de outras editoras, tragam mais trabalhos de Manu Lacernet para cá, mesmo que, segundo Pedro Bouça (tradutor do quadrinho e profundo conhecedor do mercado europeu), os trabalhos anteriores desse autor sejam bem diferentes do que vemos aqui.

O Relatório de Brodeck é definitivamente uma das obras mais poderosas que eu já li (não à toa, figurou na minha lista de melhores leituras do ano passado). Ao questionar o que é ser humano quando tudo é desumano, a obra faz o leitor refletir sobre o mundo a sua volta e sobre as mazelas que afligem a nossa sociedade. Uma leitura indispensável, principalmente no tempo permeado por ódio em que vivemos.

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Ficha Técnica

Editora : Pipoca e Nanquim
Ano de lançamento: 2018
Páginas: 212 páginas
Preço: R$120,00
Onde encontrar: Livrarias e lojas especializadas

 

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Lucas Araújo

Programador, estudante de TI e co-fundador do Justiça Geek. Fanático por quadrinhos, aficionado por filmes e séries, leitor faminto, gamer esporádico e músico (muito) frustrado. Gosta de falar sobre tudo isso em seu tempo livre(ou até mesmo quando não está tão livre...), debatendo questões essenciais para a humanidade como quem vence um crossover entre super- heróis, qual é seu escritor favorito e se um filme foi bem feito.