Recomendação da Semana – The Image Revolution

Bem-vindos a mais uma Recomendação da Semana, a coluna na qual recomendamos livros, HQs, filmes, séries e álbuns que achamos interessantes. Hoje falarei sobre um documentário que aborda um dos maiores acontecimentos da história da indústria de quadrinhos norte-americana. A recomendação de hoje é o documentário The Image Revolution!

É conhecido o fato de que a indústria de quadrinhos norte-americana nunca foi muito grata com seus criadores. O esquema de trabalho work for hire, no qual os criadores recebiam apenas pelo o que produziam e não tinham direito nenhum sobre sua criação, imperou durante muito tempo na indústria (e de certa forma ainda impera, mesmo que de um modo bem mais brando). Foi por causa desse tipo de esquema de trabalho que Jerry Siegel e Joe Schuster receberam míseros 300 dólares (mesmo que na época fosse uma quantia bem maior de dinheiro) pela criação do Superman, e Jack Kirby ganhou pouco por todas as suas criações enquanto a Marvel lucrava milhões com os personagens criados por ele.

Entre o final dos anos 80 e início dos anos 90, artistas de quadrinhos se tornaram Rockstars de certa forma. Alan Moore ganhou grande renome com Watchmen, Frank Miller chegou a trabalhar para Holywood (mesmo se arrependendo depois) devido ao sucesso de quadrinhos como Cavaleiro das Trevas e Demolidor, John Byrne estampou a capa da revista Time ao assumir o Superman, entre outros exemplos.

Os quadrinhos atingiram outro patamar no fim dos anos 80

Foi nesta época que surgiu um grupo de artistas que revolucionaria a indústria, primeiro ao fazer com que os quadrinhos atingissem níveis de vendas estratosféricos, depois por promover uma verdadeira Revolução no que tange ao aspecto do direito dos criadores. Este grupo de artistas era encabeçado por três nomes: Todd McFarlane, Jim Lee e Rob Liefield.

Mcfarlane se tornou famoso por sua fase na revista The Amazing Spider-Man (principal revista do aracnídeo), inserindo poses aracnídeas (com certas liberdades anatômicas rs) e criando personagens como o vilão Venom. Devido ao sucesso desta publicação ele ganhou uma revista na qual era responsável também pelo roteiro, chamada apenas de Spider-Man (e que teve o primeiro arco recomendado aqui no site neste link).

Jim Lee e Rob Liefield eram os responsáveis pelos principais títulos X da época. Enquanto Liefield demonstrava seu curioso (pra não dizer disforme e confuso) traço na revista X-Force, Lee trazia a popularidade dos mutantes ao seu ápice na revista dos X-Men (na qual atingiu a marca de 7,1 milhões de edições vendidas).

Todd McFarlane, o líder da Image.

As revistas desses artistas vendiam muito, as filas para autógrafos eram quilométricas nas comic shops e eventos de quadrinhos e os produtos com as artes deles, como camisetas e todo tipo de merchandising, faziam um grande sucesso. Foi aí que McFarlane, o artista com o maior senso de empreendedor neste grupo, pensou “a Marvel está ganhando milhões com a nossa arte e nós não vemos um centavo desse dinheiro. Por que eles podem lucrar tanto com o nosso trabalho e nós não sermos recompensados por isso?”.

Foi aí que McFarlane liderou o êxodo de artistas da Marvel Comics ocorrido em 1992. Além de Jim Lee e Rob Liefield, Erik Larsen (artista que se tornou famoso por substituir McFarlane na revista do Aranha), Marc Silvestri (artista que desenhava Wolverine na época), Whilce Portacio (desenhista da revista The Uncanny X-Men) e Jim Valentino (roteirista da revista dos Guardiões da Galáxia), também embarcaram na ideia de Todd McFarlane de criar uma editora na qual os artistas teriam o total controle sobre suas criações. Foi assim que surgiu a Image.

Os fundadores da Image. Da esquerda para a direita e de cima pra baixo: Erik Larsen, Rob Liefield, Todd Mcfarlane, Marv Silvestri, Whilce Portacio, Jim Lee e Jim Valentino.

O documentário é bastante completo. Através de entrevistas com os fundadores, ficamos sabendo de todos os detalhes que levaram à criação da Image. Vemos o ódio que Mcfarlane tinha da Marvel e DC e sua vontade de se vingar das duas editoras de certa forma, a empolgação de Rob Liefield em falar sobre como atingiu o sonho de produzir quadrinhos (você até simpatiza mais com seu trabalho após os depoimentos que ele dá), a maneira como eles ganharam uma quantidade absurda de dinheiro e em como cada um dos membros pensava em gastar, seja em festas, carros de luxo e contratando vários funcionários, seja pensando no futuro e investindo seu dinheiro em outros negócios (como a produção de brinquedos).

Spawn #1 é a HQ independente mais vendida de todos os tempos.

Spawn, Wildcats, Savage Dragon, Young Blood, Witchblade entre outras, eram séries que vendiam muito e que tornaram os primeiros anos da Image fantásticos. Mas é claro que nem tudo foram flores e o documentário aborda muito bem o impacto que a segunda metade dos anos 90 teve na editora.

Erik Larsen e sua criação

Briga entre fundadores, queda absurda nas vendas, o estouro da bolha gerada por especuladores do mercado de quadrinhos e a percepção do público de que aquelas histórias só possuíam um grande apelo visual e nada além disso levaram a Image ao fundo do poço. Esse processo levou à saída de Jim Lee e Rob Liefield da editora que ajudaram a fundar e à uma reestruturação da mesma.

A empolgação de Rob Liefield ao contar as histórias da época da criação da Image é contagiante.

Hoje a Image é a editora favorita dos grandes criadores da indústria de quadrinhos, devido a questão dos direitos que mencionei. Robert Kirkman, o criador de The Walking Dead, é um grande exemplo de nome que preferiu a Image para publicar seus trabalhos e acabou se tornando sócio da empresa. A editora também foi a responsável pela mudança de pensamento das grandes editoras quanto aos royalties, o que fez com que criadores tenham direitos mais justos hoje em dia.

Assistir a The Image Revolution ajuda a entender como a indústria de quadrinhos funciona e como um bando de moleques causou uma grande revolução. Você pode ter qualquer tipo de restrição quanto ao trabalho de alguns desses artistas, mas não pode negar a sua importância na briga pelos direitos dos criadores nesta indústria.

Ficha Técnica

Duração: 81 minutos
Direção: Patrick Meaney
Ano de Lançamento: 2014

 

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Lucas Araújo

Programador, estudante de TI e co-fundador do Justiça Geek. Fanático por quadrinhos, aficionado por filmes e séries, leitor faminto, gamer esporádico e músico (muito) frustrado. Gosta de falar sobre tudo isso em seu tempo livre(ou até mesmo quando não está tão livre...), debatendo questões essenciais para a humanidade como quem vence um crossover entre super- heróis, qual é seu escritor favorito e se um filme foi bem feito.